EDUCAR PARA REENCANTAR A VIDA - RESENHA

 

          RESENHA

         Educar para reencantar a vida

JUNG MO SUNG

 

Sung, Jung Mo. Educar para reencantar a vida. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

                       Resenhista: Roberto Gameiro - em 23/05/2011

O livro Educar para reencantar a vida é um daqueles que merece ser lido, apreciado, refletido, degustado por todo educador que pretende sê-lo na verdadeira acepção do termo.  O conteúdo é denso, significativo e representativo daquele grupo de pesquisadores que leva a sério a tarefa de pensar a educação e a vida na busca da construção de uma sociedade na qual se possa viver um sentido mais humano, mais solidário, mais justo e com mais encanto.

O texto é resultado de um projeto de pesquisa realizado na Universidade Metodista de São Paulo, onde o autor atua como professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião.

O livro constitui-se de 10 capítulos desenvolvidos em 150 páginas, daquelas que iniciada a leitura, não dá vontade de parar...

O autor, para enriquecer suas contribuições para o tema, recorre ao pensamento, aos estudos e escritos de diversos outros pesquisadores de várias áreas do conhecimento, como Rubem Alves, Hugo Assmann,  Leonardo Boff, Peter Drucker, Paulo Freire, Erich Fromm, Moacir Gadottti, Howard Gardner, Humberto Maturana, Maria Cândida Moraes,  Edgar Morin, Jean Piaget e outros.

Nos três primeiros capítulos, o autor discute a relação entre a vida e o conhecimento, para chegar à noção de que “viver é conhecer, conhecer é viver”.

A vida e o viver não consistem em obter informações, mas na capacidade de processar informações, o que chamamos de conhecimento, o que implica uma concepção da mente que rompe com o dualismo de corpo/cérebro e mente. A mente não é uma coisa, mas um processo. O cérebro é uma estrutura específica por meio da qual esse processo opera. Não há cultura sem cérebro humano, mas não há mente (mind), isto é, capacidade de consciência e pensamento, sem cultura. A mente humana é uma criação que emerge e se afirma na relação cérebro-cultura.

Todas as espécies, e não somente a espécie humana, se encontram em um processo de destruição do próprio ambiente, o que nos leva à conclusão de que precisamos nos educar permanentemente porque não só modificamos o ambiente com nossas ações, mas também porque o ambiente é uma constante criação nossa.

Nós, seres humanos somos diferentes das outras espécies porque não queremos estar somente vivos, mas queremos também sentir que vale a pena viver. Necessitamos de um sentido de vida que faça as pequenas coisas que compõem o nosso dia a dia terem sentido e valor. 

Nascemos sem um sentido de vida predeterminado pela natureza e, por isso, temos de procurar encontrar ou criar um sentido que faça a nossa vida ter sentido. Por outro lado, a própria ideia da “busca de sentido”, que pressupõe que o sentido já existe em algum lugar, seria um contrassenso. O sentido não é para ser buscado, nem encontrado, é para ser produzido, inventado, criado.

Quanto ao sentido da educação, o autor afirma que quando um processo educacional não ajuda o educando a conhecer ou construir um sentido que faça valer a pena lutar pela vida e pelo processo de humanização, esse mesmo processo educacional acaba por não oferecer o sentido da sua própria ação educativa.

O quarto capítulo trata da relação entre a ciência e o mito e analisa o papel do mito e da linguagem simbólica no processo de conhecimento no campo técnico-operacional e no do sentido da vida.

O senso comum considera o mito como contrário da verdade ou da ciência; entretanto, o mito não se opõe à verdade, não à verdade entendida como tal pelas ciências modernas. Os cientistas, ao tentarem responder com teorias científicas a perguntas que se relacionam com o sentido da existência humana, lançam mão da linguagem metafórico-simbólica e invadem o campo do mito. O autor lembra que os cientistas não devem abusar da ciência, aplicando-a a situações claramente especulativas, tentando ou crendo resolver questões de natureza teológica.

A constatação de que todos os mundos humanos são constituídos de mitos e símbolos levanta-nos o desafio de estudarmos os mitos não apenas no sentido do reconhecimento da existência e função social deles, mas também no sentido crítico de discernirmos o que faz um mito ser melhor do que outro e quais nos ajudam a construir um sentido mais humano para as nossas vidas.

Os quinto e sexto capítulos analisam o espírito e a espiritualidade do capitalismo, a sua fé e sua religião da vida cotidiana, e como o encantamento do consumo desencantou a vida e a educação.

Para se discutir o papel da educação na sociedade ou estudar o sentido de vida predominante, há que se entender como a sociedade funciona, se reproduz e se mantém no tempo. Para lhe dar regras comuns, para instituir o comando, para fazer a paixão ceder à razão e a razão individual à pública, é preciso algo mais elevado do que a força material, do que uma teoria filosófica... Essa coisa é uma crença. Essa crença pode ser sustentada por um mito, por uma ideologia ou por uma ciência ou pseudociência.

Hoje, com a globalização neoliberal, o “ganhar dinheiro” tornou-se uma finalidade em si que chega a parecer algo superior à felicidade ou utilidade do indivíduo. Esse princípio orientador foi radicalizado e disseminado por quase todo o mundo e invadiu quase todas as esferas da vida econômica e social. Por isso, prevalece o culto do lucro a qualquer preço. Esse culto oferece a vantagem da simplicidade brutal e da clareza, como único ponto de referência estável e que tem levado à perda dos valores morais tradicionais. Torna-se, então, imperativo, após a vitória definitiva do capitalismo e a queda do bloco socialista, abandonar a questão “filosófica” da finalidade, para fixar-se no estudo técnico dos meios.

Torna-se, então, urgente desvelarmos, analisarmos e debatermos o sentido último da nossa civilização, os seus mitos básicos que a veiculam e a espiritualidade que a impulsiona. Mesmo que o atual sentido de vida seja reafirmado após o debate, as pessoas o assumirão com mais clareza e convicção.

Continuando a análise, o autor registra que se a riqueza é a base para a estima da sociedade para com o seu possuidor, ela também se torna um requisito para a auto-estima das pessoas. Esse padrão de consumo que ocupa um lugar central para a identidade pessoal é chamado de “cultura de consumo”. Na medida em que as religiões tradicionais não mais conseguem encantar a vida e o mundo, o mercado o faz.

Os jovens perderam a utopia que movia a geração dos anos 1960 e 1970, a emancipação da sociedade, mas não perderam os sonhos e motivações para suas vidas: ganhar dinheiro, aspirar aos midiáticos sonhos de consumo, ou deixar-se hipnotizar por uma estética anoréxica.

Se não superarmos essa cultura de consumo, não poderemos reencontrar um sentido mais humano para as nossas vidas, nem superar a crise mais profunda da educação.

Nos capítulos de sete a dez, Sung apresenta propostas de reencantamento da vida e da educação e apresenta pistas de como poderemos educar para reencantar a vida e encontrar ou elaborar um sentido da vida que tome a sério a nossa condição humana. 

As propostas, segundo o autor, devem ser entendidas não como uma simples volta a uma civilização baseada na religião ou em uma visão mágica do mundo, mas como uma tentativa de ir além dessa redução da natureza, das pessoas e das atividades sociais ao cálculo econômico. Nesse sentido, a expressão “reencantamento da educação” pode ser vista como uma bandeira de transformação social.

Essa atitude de reencantamento, segundo Leonardo Boff (Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres: Ática, 1995), pede uma nova aliança com a Terra, para a qual o resgate da dimensão do sagrado é condição sine qua non.

Referindo-se a Maria Cândida Moraes (Educar na biologia do amor e da solidariedade: Vozes, 2003), escreve que a procura do Sagrado como a Fonte existente dentro de cada um de nós significa buscar a identidade do ser humano pelo autoconhecimento,  para que o homem e a mulher possam conhecer a si mesmos e desenvolver a capacidade de reflexão e de consciência.

Na parte em que enfoca o “reencantar a educação para reorientar a humanidade”, o autor se vale principalmente dos escritos de Hugo Assmann e, em especial, do livro Reencantar a Educação (Vozes, 1998). “De onde viria o entusiasmo dos educadores? Ele não faz nenhuma referência a algum espírito divino ou a alguma inspiração de origem artística. O entusiasmo seria fruto do reconhecimento de que a educação é mais do que uma mera atividade profissional em troca de um salário; do reconhecimento de que a educação é um dos principais meios hoje para salvar vidas humanas.”.

Em síntese, reencantar significa o entusiasmo dos educadores e dos educandos, uma nova epistemologia e uma nova postura ética colocando ênfase numa visão da ação educativa como ensejamento e produção de experiências de aprendizagem. “Portanto, o compromisso ético-político do educador deve manifestar-se primordialmente na excelência pedagógica e na colaboração para um clima esperançador no próprio contexto escolar.” (ibid.:34)

Sung termina o último capítulo afirmando que “liberdade, reencantamento da vida e humanização são características do horizonte utópico que nos atrai e “convida a lutarmos com esperança, sensibilidade solidária, eficiência pedagógica, uma nova racionalidade e compromisso ético-político.”.


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