segunda-feira, 20 de maio de 2019

segunda-feira, 13 de maio de 2019

TEMPO DE TRAVESSIA



Roberto Gameiro

Você já percebeu que as crianças e adolescentes, nossos filhos e alunos, nos desafiam o tempo todo a sair de uma pretensa e possível zona de conforto na qual estávamos acomodados e seguros?

Você, pai ou mãe, percebeu que o nascimento do primeiro filho delineia um antes e um depois familiar e pessoal, e que muitos dos nossos planos têm início após essa data, tendo como referência e parâmetro a vida daquele “serzinho” amado com que fomos premiados?

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Fernando Teixeira de Andrade (1946-2008) escreveu certa vez: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”.

Toda travessia supõe uma posição de saída e outra de chegada, intermediadas por múltiplas posições durante o percurso.

A vida é uma constante travessia. Fazemo-la às vezes sozinhos e na maioria das vezes, felizmente, acompanhados.

A família é a melhor acompanhante para a travessia. Ela nos traz a segurança de um porto seguro ao qual sempre podemos voltar, nem que seja apenas para recarregar as forças numa posição de percurso.

Os pais, os irmãos, a esposa, o marido, os amigos mais chegados constituem, conosco, a “tripulação” dessa “nave” que conduzimos e que conduz os nossos destinos, o nosso sentido de vida.

Entretanto, o homem e a mulher modernos, apesar de tantos meios de comunicação disponíveis, ainda vivem solitários mesmo que acompanhados. E procuram incansavelmente algo que os complete.  

O mesmo Fernando Teixeira de Andrade nos socorre com a afirmação: “Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um.”.

Lembremo-nos da afirmação que se atribui a Confúcio: “Você tem duas vidas. A segunda começa quando você percebe que só tem uma.”.

Não fique à margem da sua própria existência. Não seja coadjuvante de si mesmo. Seja protagonista da sua travessia.

Artigo editado e publicado no jornal "O Popular" de Goiânia em 07/05/19.

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Roberto Gameiro é Palestrante, Consultor e Mentor nas áreas de “Gestão de escolas de Educação Básica” e “Educação de crianças e adolescentes”. Contato: textocontextopretexto@uol.com.br.

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segunda-feira, 29 de abril de 2019

COMO EU ME VEJO E VOCÊ ME VÊ

Rosto, Cabeça, Perfil, Perfil, Perfil


Roberto Gameiro

É de Clarice Lispector (1920-1977), escritora e jornalista ucraniana naturalizada brasileira, a afirmação: “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar”.

Cada um de nós tem uma imagem de si próprio, fruto das vivências e do concerto formado pelas características da personalidade e do caráter.

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Nem sempre a forma como nós nos vemos coincide com a forma como os outros nos veem. Essa relação não necessariamente coincidente tem a ver com os valores que direcionam os olhares do emissor e do receptor, o que significa que não se pode afirmar que uma das visões é mais correta do que a outra.

Nesse contexto, o escritor e conferencista Paulo Vieira complementa: “A maneira como você se vê determina suas escolhas, ações, reações e, sobretudo, os resultados que tem e terá na vida”, e que “Nossas crenças sobre nós mesmos influenciam todas as nossas escolhas mais significativas e importantes, direcionando todas as nossas decisões e, portanto, determinando a vida que levamos.”.

Isso ocorre de maneira especial com as crianças e adolescentes que, por não terem ainda as conexões cerebrais suficientemente amadurecidas, apresentam tendências de copiar comportamentos sem passá-los pelo filtro da razão, o que atrapalha o discernimento da forma como se veem e se sujeitam a aceitar facilmente a forma como os outros os veem.

Leve-se em conta, também, quem nos vê e, como escreve Clarice Lispector, quando e como nos vê. Dependendo do quem, onde, como e quando nos veem, poderemos ser valorizados positivamente ou negativamente. Procuremos, portanto, sempre que possível, estar nos lugares certos, nos momentos certos e com as pessoas certas, não nos sujeitando a sermos “avaliados” por pessoas erradas e inadequadas.

Carl Rogers (1902-1987), fundador da psicologia humanista, afirmou: “Todo ser humano, sem exceção, pelo mero fato do ser, é digno do respeito incondicional dos demais e de si mesmo; merece estimar-se a si mesmo e que se lhe estime.”.

Cuidemos da nossa autoestima.

Artigo editado e publicado no jornal "O Popular" de Goiânia em 16/04/2019.

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segunda-feira, 15 de abril de 2019

AS COMPETÊNCIAS NECESSÁRIAS: O DESAFIO DO ENSINO

Inovação, Acho Que, Novo, Idéia


Roberto Gameiro

Competência é a capacidade de o indivíduo movimentar recursos para abordar/resolver uma situação complexa. Entre as competências que um processo de ensino e aprendizagem deve desenvolver nos estudantes, a “memorização” é a mais simples delas. Embora seja a mais simples, ela é a base que sustenta todo o arcabouço posterior que o indivíduo deve adquirir para resolver situações mais complexas.

A memorização, também denominada como fase de “conhecimento”, constitui-se na evocação de informações arquivadas ou armazenadas na memória. É como se fosse, num primeiro momento, uma memória RAM, que, transferida para o disco rígido, passa a ser base de processamentos mais apurados e complicados. Sem ela, seria como tentar construir uma casa sem o alicerce.

Por óbvio, e desculpem-me a simplicidade da comparação, nenhum engenheiro vai considerar terminada uma obra com apenas o alicerce construído. Há muito, ainda, a ser feito até que a edificação possa ser considerada concluída, sólida, pronta, satisfatória e adequada para o uso a que se destina.

Analogamente, nenhum processo de aprendizagem pode se considerado satisfatório sem que os estudantes tenham adquirido, além da memorização, também as capacidades de compreensão do que foi memorizado, de aplicação do que foi compreendido, de análise e síntese do que foi memorizado, compreendido e aplicado, e, especialmente, sem que os alunos estejam preparados para fazer julgamento crítico sobre o que foi memorizado, compreendido, aplicado, analisado e sintetizado. Esse é o ciclo completo do apaixonante concerto do aprendizado.

As competências aqui relatadas, memorização (ou conhecimento), compreensão, aplicação, análise, síntese e julgamento (ou avaliação), são as propostas por Benjamin Bloom (e outros) na sua “Taxionomia de objetivos educacionais – domínio cognitivo” lá no longínquo ano de 1956 (a primeira edição do livro no Brasil data de 1972). Hoje, fala-se em competências “básicas”, “operacionais” e “globais”, que, no fundo, podem ser classificadas como mais abrangentes, mas equivalentes às de Bloom. É comum fazer-se a analogia, a correspondência, de umas com as outras, tendo as primeiras como referência para facilitar a compreensão.

Se você quiser saber de que forma e com que profundidade um professor está desenvolvendo o processo de aprendizagem com os alunos, você não precisa necessariamente assistir às suas aulas. Basta analisar as questões inseridas nos seus instrumentos de avaliação. Ali, descobre-se se o docente está na superficialidade da mensuração apenas das competências mais simples, ou se chega a enfocar situações mais complexas, como as chamadas competências “globais”. A prova é um retrato da metodologia e da práxis docente.

A prática tem demonstrado que num grande número de escolas brasileiras a metodologia adotada não tem conseguido fazer com que os estudantes adquiram competências mais exigentes, mormente as de “síntese” e “julgamento”, ou “globais”.

Nos resultados do “Programa Internacional de Avaliação de Estudantes” (PISA), coordenado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e, no Brasil, pelo INEP, ocupamos, desde há muito, posição vexatória no ranking dos países avaliados. Entre as principais fragilidades dos estudantes brasileiros, está o fato de que eles geralmente só “vão bem” nas questões que mensuram capacidades mais rasas, ou, melhor explicando, as “decorebas”. Isso é sintomático, está assim diagnosticado há muitos anos, mas continuamos na mesma.

Somos um sistema de formação escolar que tem se contentado apenas com pouco mais do que o “alicerce”.

 Aí está o (grande) desafio ainda a ser enfrentado.

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segunda-feira, 1 de abril de 2019

A SUBJACÊNCIA DOS CICLOS SOCIAIS

Relógio, Presente, Ano, Século, Minutos

Roberto Gameiro

“Um dos mais sérios escolhos em nosso tempo é a necessidade da especialização, isto é, de sermos por força unilaterais. À medida que todas as coisas parecem pôr-se a nosso alcance (...), bem como por causa dessa espécie de impudor com que as maiores intimidades se expõem na via pública, não obstante tudo isso, o homem moderno vive cada vez mais recolhido dentro de si próprio. Vivemos abafados por uma montanha de jornais, revistas, cartas, livros, notícias. Está tudo tão à mão, que nada é acessível.”

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O texto acima, de Américo de Castro, consta das última e penúltima capas de renomada revista, publicada em junho de 1945, sob o título "A democracia é um esforço criador", logo após o término da Segunda Guerra Mundial, ocasião em que o mundo passava por transformações sociais radicais.

Parece que o texto foi escrito hoje, não é?

Setenta e quatro anos nos separam daquele momento. Guardadas as proporções e a diversidade das realidades que subjazem o descrito, vivemos uma época que equivale àquela, até porque foi a partir de 1946 que o conhecimento passou gradativamente a ser mais valorizado do que o trabalho operacional. Hoje, a cada dois dias, se produz mais informação que nos últimos 5 mil anos!

Vivemos plenamente a “era da informação”. Eis porque mudou radicalmente a postura esperada dos professores, que deixaram de ser os “donos do conhecimento” para serem mediadores dos alunos na busca e uso das informações e dos consequentes saberes e conhecimentos delas derivados.

Mas, por razões diferentes das de sete décadas atrás, o homem moderno continua vivendo recolhido dentro de si próprio, as intimidades são expostas sem qualquer pudor nas redes sociais, e há tanta informação disponível, que não se sabe bem o que fazer com tanta fartura.

E o autor prossegue no seu texto: "É mister mostrar quais são as perspectivas de um mundo melhor, no qual o sorriso não chegue a ser uma inesperada impertinência.".

Realmente, a sociedade passa por ciclos cujas características, embora subjacentemente diversas, cabem nas mesmas descrições.

Artigo editado e publicado no jornal "O Popular" de Goiânia no dia 27/03/2019 sob o título "As subjacências sociais".

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segunda-feira, 18 de março de 2019

AS PROFISSÕES E A LÍNGUA PORTUGUESA

Grupo, Pessoal, Gabarito, Confirmando


Roberto Gameiro

Há algum tempo, com o intuito de colaborar com um jornalista de TV que insistia em falar “subsídio” com som de “subzídio” enquanto todos os seus colegas falam o termo corretamente, entrei no site da emissora para enviar o recado. Entretanto, após o registro do recado, tive de começar a preencher um longo questionário com: nome completo, endereço completo, RG, CPF, telefone, e-mail e respostas a uma série de perguntas. Só faltou pedir o número do meu sapato (rss). Desisti. E ele continua falando o termo de forma errada.

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No “Aurélio”, encontramos uma das definições de “Profissão” como sendo “atividade ou ocupação especializada, e que supõe determinado preparo”.

O “determinado preparo”, acredito, refere-se aos conhecimentos inerentes ao exercício daquela profissão em particular.

Dá gosto dialogar com profissionais que conhecem profundamente os fundamentos, as práticas e as novidades do mercado relacionadas ao seu métier, à sua especialização.

Mas, mais do que isso, como é agradável conversar com quem sabe usar bem a língua portuguesa, sem cometer aqueles erros graves que nos “doem nos ouvidos”.

Há determinadas profissões em que a utilização correta da língua portuguesa acrescenta credibilidade às competências inerentes à ocupação respectiva.

Neste artigo, permito-me referir a profissionais da comunicação, inclusive professores. E começo homenageando esses profissionais pela importância que suas profissões agregam à sociedade como um todo, especialmente às crianças e adolescentes, que estão em fase de formação. Diariamente, nas suas diversas modalidades de atuação, comunicam-se com a população, pessoalmente ou por meio das mídias. Participam, portanto, do processo de educação dos jovens com informações que vão ser agregadas à cognição deles.

Mas, por mais competentes que esses profissionais sejam nas suas especializações, não há como aceitar erros crassos de fala e escrita, de alguns poucos, como, por exemplo, “previlégio” no lugar de “privilégio”, “subsídio (subzídio)” no lugar de “subsídio (subssídio)”, “de encontro a” no lugar de “ao encontro de”, “esteje” no lugar de “esteja”, “análize” no lugar de “análise”, “mal” no lugar de “mau”, “a” no lugar de “há”, “perca” no lugar de “perda”, “comprimento” no lugar de “cumprimento” etc.

Há um velho ditado que diz que “errar é humano, mas persistir no erro é burrice”. A língua portuguesa é bastante complexa e mesmo os que a usam habitualmente na sua profissão cometem erros que, quando os identificam, ficam sem graça e desconcertados; mas corrigem-se e não erram mais.

Sempre que pudermos, vamos colaborar com os que necessitam de uma “ajudinha” em relação a esses termos corriqueiros. Sob pena, inclusive, de eles não gostarem.

Entretanto, há que se registrar que o nosso idioma é uma língua viva e, como tal, está sujeito a acomodações semânticas, ortográficas e fonéticas em função da repetição exaustiva da escrita ou da fala de determinados significantes, ou de reformas ortográficas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a expressão “através de”, que, a partir do dicionário “Aurélio Século XXI” teve o seu significado ampliado para “por intermédio de”. Acredito que analogamente, com o tempo, será aceita a palavra “subsídio” com o som de “subzídio”; mas, por enquanto, essa pronúncia é errada.


Água mole em pedra dura...

Artigo editado e publicado no jornal "O Popular" de Goiânia em 12/03/19.

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