O TEXTO NO CONTEXTO COMO PRETEXTO - Para debates em família e na escola - Roberto Gameiro

quinta-feira, 12 de março de 2026

A INSUBORDINAÇÃO DO CANTAR E DO BRINCAR


Roberto Gameiro

 

Eduardo Galeano (1940 -2015), jornalista e escritor uruguaio, escreveu no seu livro “O livro dos abraços” (1): "Na parede de um botequim de Madrid, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."

 

Aí está uma perspicaz observação sobre o comportamento humano e sua reação contra a rigidez institucional.

 

Ninguém colocaria uma placa num espaço público ou privado com os dizeres: “É proibido caminhar a 100 km por hora nestas dependências”. Isso porque essa ação não é realizável por um ser humano.

 

Mas “cantar” e “brincar” são atitudes e reações naturais dos indivíduos em relação ao meio social em que vivem.

 

No botequim, o cartaz pretende proibir o canto em favor do silêncio, porque o vinho e demais bebidas “convidam” os comensais a cantar, contagiando a todos os presentes (ou incomodando muitos).

 

No aeroporto, o aviso proíbe brincar com os carrinhos de bagagem, para garantir o trânsito livre e seguro dos viajantes, porque crianças, pela sua natureza lúdica, e adultos aborrecidos e agastados, talvez pelo tempo de espera, veem nos carrinhos uma oportunidade de divertimento e distração.

 

Nas duas situações, e em “n” outras equivalentes, trata-se de um embate entre o caráter “institucional” dos ambientes e a essência humana pulsante que busca o afeto, a celebração e a brincadeira.

 

Estão errados o botequim e o aeroporto ao proibir essas situações?

 

Sob o meu olhar, não.

 

Cada instituição tem o dever de preservar o bem-estar dos seus usuários em acordo com suas finalidades estatutárias. Aí, cada uma é uma, ou seja, cada caso tem suas particularidades e precisa ser avaliado separadamente.

 

Mas, o que de mais relevante a frase destacada traz, é a informação de que “ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.".

 

Cantar e brincar constituem chamadas à esperança. Na medida em que num mundo cheio de violência, corrupção, guerras e marcado pela falsidade, crises e cinismo, ainda houver pessoas brincando e cantando, esse mundo ainda tem salvação.

 

Gonzaguinha, na sua canção: "O Que É, O Que É?", nos traz essa esperança:

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz / Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz."

 

Ainda.

 

REFERÊNCIA


(1)   GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 1991.


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Roberto Gameiro é Mestre em Administração com ênfase em gestão estratégica de organizações, marketing e competitividade; habilitado em Pedagogia (Administração e Supervisão); licenciado em Letras; pós-graduado (lato sensu) em Avaliação Educacional  e em Design Instrucional. 


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