Roberto Gameiro
“As Aparências enganam” foi uma página publicada pela revista “O Cruzeiro” que foi um dos mais importantes periódicos da imprensa brasileira entre 1920 e 1980. O autor era o chargista pernambucano Carlos Estêvão; ele desenhava uma cena, muitas vezes vista através da sua sombra, que, à primeira vista parecia uma coisa escandalosa ou suspeita, mas que, quando revelada por inteiro, mostrava algo diferente, inocente e ingênuo.
Pena que acabou.
Lembrei-me dessa publicação ao me propor a escrever sobre um assunto recorrente nos dias de hoje na imprensa e nas redes sociais, a saber:
“Às vezes, alguém presencia uma cena, supõe o restante e confunde imaginação com conhecimento. É como julgar um livro pela capa.”
Os relacionamentos humanos são marcados por diálogos, silêncios, pausas e imagens que muitas vezes não são perfeitamente assimilados pelos sentidos ao olhar superficial. Isso é causador de muitos conflitos e mal-entendidos. Trata-se de uma tendência humana de preencher lacunas comunicacionais com suposições e tê-las como verdades absolutas; no entanto, na maioria das vezes, trata-se de mentiras; e uma mentira repetida constantemente acaba parecendo verdade.
Triste.
Para superar essas situações contraditórias e até vexatórias, há que se substituir a certeza imaginada pela curiosidade efetiva e genuína.
Perguntar não ofende.
Dar ao outro o benefício da dúvida em vez de dar “asas à imaginação”, desde que não haja “segundas e maldosas intensões”, exige um esforço consciente de desaceleração mental, que é a prática intencional de reduzir a velocidade do fluxo de pensamentos que norteia o dia a dia contemporâneo.
É uma busca do equilíbrio mental.
Isso porque o hábito de fazer julgamentos apressados baseados em recortes de fatos, cenas ou imagens, corrói a confiança e o afeto, causando distanciamento entre pessoas que deveriam ser suporte seguro umas em relação às outras.
Se não tomarmos cuidado, correremos o risco de nos perder da grande riqueza da diversidade humana por substituir a empatia pelo julgamento infrutífero.
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